sábado, 25 de janeiro de 2014

Um prólogo

        Seguinte: quero divulgar por aqui o prólogo de um projeto no qual eu venho trabalhando faz alguns anos. É um prólogo que "existe" a bem menos tempos que o resto da história, que nasceu de um jeito, cresceu de outro e se retorceu em alguma coisa ainda, mas de certa forma dá o tom do que vem depois.
       Caso você aí tiver paciência de ir até o fim, seria legal dar um feedback. Se gostou, se achou um lixo, o que poderia ser melhorado, se pensa que eu devo plantar tomate pro resto da minha ou etc's e tais.
       Obrigado :)




            A cabeça de Sylf doía incrivelmente.
             Sentado na borda de sua cama, na cela que dividia com outros dois guardas, sentia os tênues raios de sol que entravam pela janela estreita como lanças perfurando seu crânio.  “Lyta precisa encontrar um vinho que não seja tão ruim”, pensava ele com a cabeça enterrada entre as mãos, “ou ela ainda perde todos os clientes daquela taberna”.
            As lembranças da noite anterior estavam um tanto bagunçadas. Conseguia visualizar não muito mais que um cantor e suas canções obscenas, duas prostitutas se beijando e um anão que com metade de seu tamanho bebia três vezes mais vinho. E a vaga imagem de um homem estranho urinando no reservatório de água da cidade. Não tinha certeza se sonhara essa última parte, mas algumas marcas de sangue manchavam a ponta de sua espada largada no chão ao lado da cama. “Acho que precisei empunhar a espada pra mandar o imbecil embora”.  Sacudiu a cabeça e se pôs em pé, lavou o rosto com a água de uma bacia e sentiu-se ligeiramente mais humano. O lugar estava estranhamente quieto, as camas de seus companheiros feitas, e tirando o odor da própria embriaguez, o ambiente não fedia.
            Trocou de túnica e colocou o peitoral de aço, afivelou o cinto da espada e foi atrás de algo para quebrar o jejum. Deixou a velha e toda lascada porta de madeira para trás e tomou o comprido corredor que levava à sala comum dos homens da Guarda. Do outro lado das demais portas que se enfileiravam por toda a extensão do caminho ouviam-se todos os tipos de ruídos, pragas, gemidos, sussurros e conspirações. Sylf caminhava com passos largos, mas não apressados. Respirava muito fundo e deixava a brisa fresca da manhã acariciar seu rosto como se fossem os hábeis dedos da moça com quem dormira na noite anterior. A essa altura o sol já se impunha sobre o horizonte e a vida tinha acordado plenamente para um novo dia.
            A sede da Força ficava exatamente no coração da cidade, aos pés do palácio real; e por isso todos os som e odores da cidade podiam ser sentidos dali. O de pão sendo assado flutuava matreiro entre os menos apetecíveis que vinham dos estábulos. Os feirantes gritavam, faziam ofertas e ofendia-se mutuamente; relinchos e impropérios nas vielas; ferro sendo malhado nas forjas; e tantos outros que já faziam parte da vida daqueles homens e mulheres.
            Ouvindo os ruídos da cidade Sylf sabia que ela estava viva; o silêncio o assustava. Nasceu e cresceu ali, com aquela barulheira o acompanhando desde o primeiro dia. A lembrança dos dias no campo com a família o deixava nervoso, o silêncio quase imperturbável das campinas e pastos fora um tormento angustiante. Às vezes sentia que sua missão como guarda era manter aquela vida barulhenta, ao causar gritos e protestos nas rondas por tabernas e bordéis, ao prender figuras de sangue nobre fazendo arruaça e isso causar um fervilhante murmurar entre a gente comum, ao arrancar saudações e louvores quando conseguiam defender a cidade de um ataque.
            Adentrou a sala comum sem ser notado. Não estava cheia; a maior parte dos homens já estava em suas ronda, apenas umas duas dúzias de outros Citadinos ocupavam as mesas, conversando enquanto comiam ovos cozidos e pão preto de alguns dias já, engolindo isso com algo aguado que alguns teimavam em chamar de cerveja. “Tempos de vacas magras”.
            Caminhou até uma mesa e ali pegou um prato de madeira além de uma caneca de lata, serviu-sede alguns ovos e pão, enchendo a caneca. Enquanto fazia isso não pode deixar de ouvir o que dois velhos guardas falavam a alguns passos de distância:

- Os tempos vão mudar agora. O velho Celsius tem um pé na cova e não vai demorar mais muito tempo para aquele filho estúpido dele tomar o trono.

- A tão esperada derrocada do dourado reino de Swandia – Disse o outro em tom de deboche, com a cara já enrugada ainda mais contraída, mirando o fundo da caneca enquanto engolia um longo trago de cerveja.

- Agora aqueles frescos swandis vão abaixar o nariz empinado – A voz do outro homem soava amarga e fedendo a rancor – O fedelho do Celsius vai perder o trono na primeira rebeliãozinha que algum lorde armar, e então Swandia vai conhecer a guerra outra vez. Ninguém jamais teve peito de encarar os reis lá até hoje, mas se o príncipe não desperta nem pena como vai conseguir respeito? Já é uma cabeça mais baixo antes mesmo de usar a coroa.

            “Swandia...” pensou Sylf, mastigando seus ovos e o pão sem gosto de nada, tentando imaginar que aquele era o pão fresco de que sentira o cheiro há pouco. “A Rosa do Oeste, próspera e rica sentinela do ocidente...” ele recitava as palavras que ouvira quando criança e nunca mais esquecera. Swandia era quase como um mito reluzente, um paraíso mágico que nunca ninguém conseguiria alcançar. Mesmo estando há poucas centenas de léguas dali.
            Para a maioria dos homens de Krennix a riqueza e paz do reino vizinho era motivo de uma dolorosa inveja. Ali tudo era difícil: cada ano as colheitas eram piores e o fantasma da fome começava a assombrar as pessoas comuns; havia pouco trabalho e os mendigos se multiplicavam como moscas; escaramuças cada vez mais sangrentas ocorriam com outros reinos tão miseráveis como aquele, destruindo famílias e ceifando vidas de inocentes; pestes se espalhavam em surtos incontroláveis e era impossível de se prever quando voltariam; as crianças não tinham educação e cada vez mais delas entravam em bandos de salteadores, e às vezes, se o destino fosse suficientemente cruel, acabariam por saquear suas próprias vilas e matar seus pais e mães e irmãos.
            Então esses homens duros e marcados pelas mazelas da vida voltavam os olhos para oeste e se deparavam com a fartura swandi. Onde quase ninguém passava fome, a guerra era apenas uma difusa lembrança de um passado muito distante e a miséria era desgraça de poucos. Assim era difícil aquela gente não guardar um rancor azedo de Swandia, mesmo o reino vizinho não ter feito uma investida contra Krennix há mais de seiscentos anos. E o louco sonho de tomar aquela terra próspera em uma guerra como as dos velhos tempos já era esquecido há séculos, pois mesmo não guerreando, um exército swandi esmagaria qualquer tropa de seus insignificantes reinos vizinhos.
            Invejar era o que restava.
            Sylf voltou de seus devaneios quando um companheiro da Força sentou-se ao seu lado.

- Cuidando a conversa dos velhos – Disse ele – Você já fez coisa melhor da vida, Sylf.

- Verdade – Concordou Sylf – Mas em tempos como os nossos o que nos sobra é ouvir alguma coisa útil dos velhos e tentar não fazer as mesmas idiotices que eles fizeram.

- Noite ruim? – Perguntou o outro, após uma longa sorvida de cerveja – Sempre que vejo você assim é por causa de uma noite ruim. Muito ruim geralmente.

- As carícias da Wanda não compensaram o vinho nojento da taberna da Lyta – Respondeu Sylf com um ar triste – A vida anda difícil demais nessa parte do mundo. Sem comida decente, sem bebida decente, mais problemas que prazeres.... Nossas boas rameiras infelizmente não dão conta de fazer com que respirar valha a pena.

            O outro homem tinha os olhos avermelhados e uma expressão cansada no rosto. “Vigília na muralha” supôs Sylf. O cabelo castanho escuro estava remexido, e nos ombros largos coberto com uma manta verde-escura via-se uma fina camada de sujeira. “O vento carrega muita poeira nessa época do ano...”. 
                                              
- Meu tempo de serviço compulsório vai logo acabar, e imagino que o seu também Aleff. Você já decidiu se quer continuar na Força?

- Tenho pensado nisso – O nariz arrebitado se encrespou com a fungada que ele deu antes de responder – É uma decisão difícil. Quais as chances que poderíamos ter deixando essa vida para trás? Você sabe fazer alguma outra coisa que não seja empunhar uma espada ou ficar circulando pelas ruas e as muralhas?

- Meu pai foi sapateiro a vida toda – Respondeu Sylf um tanto vagamente – O pai dele também. E o avô. Por aí vai. Coisa de família entende? Eu teria seguido a tradição, cresci com cheiro de couro e cola da sapataria lá do Matadouro, e não tinha muito interesse em outras coisas. Isso de ser homem da Força era coisa do meu irmão mais velho, Sami. Ele gostava das histórias sobre honra e glória das batalhas, dizia que era a vocação dele, e o que seu maior sonho era fazer carreira. Passar de Citadino para Real, e um dia ser o Escudo-do-Rei. O velho ficou todo animado, achando que pelo menos um rebento daquela linhagem faria algo melhor que remendar sapatos de nobres que não se dignavam a olhar para baixo; que seria alguém na vida.

- Nunca vi ninguém que tenha a mesma cara feia que você por aqui – Comentou Aleff depois de um momento de silêncio – O que houve com ele?

- Você ainda pergunta? A Praga de Lótus, óbvio.

- Ah sim, perdi um tio naquela época. Se bem que provavelmente o culpado por aquilo tudo foi ele, que trouxe as primeiras flores pra cá e...

- Acho que Sami morreu sem nem saber o que derrubou ele – Continuou Sylf sem dar atenção para que Aleff falasse – Tinha recém começado o treinamento da Guarda.  Não me lembro de alguma vez ter visto o velho mais orgulhoso. E então, do dia para a noite, ele morre e alegria da família escorre pelas canaletas do esgoto. Você não tem ideia de como eu me senti mal vendo meu pai tão triste, eu pensei seriamente que ele fosse se jogar no Sujo.

- Que fim deprimente seria. Quer dizer que você salvou o dia então?

- E estraguei de vez a minha própria vida. Foi meio no impulso, sabe? Quando eu me dei conta estava assinando um papel na frente de um sujeito com cara de tijolo e no momento seguinte tinha uma espada na mão, apanhando como nunca.

            “E por nada” pensou Sylf depois de ter parado de falar. “O velho ingrato nunca disse uma palavra sobre isso”. A visão do rosto sem vida de seu pai gravou-se em sua retina para nunca mais ser apagada. Os olhos estavam aquosos e distantes, a boca torta meio aberta, os cabelos grisalhos sujos e desgrenhados. Estava morto, apesar de respirar. “Morreu junto com o filho preferido”

- Não durou mais muito tempo – Falou de novo Sylf depois de alguns goles e algumas mordidas – Nem chegou a me ver entrando definitivamente para a Força. Mas do mesmo acho que estivesse vivo nem teria aparecido na cerimônia. Não seria certo se não fosse por Sami – Outro silêncio. Sylf remoia essas lembranças amargamente, porém ódio ou remorso – Passei dez anos da minha vida nessa corporação. Mas nunca me senti parte dela. Meu lugar não é aqui.

- Vai fazer o que então?

- Comprar um cavalo com o que economizei nesses anos e sair pelo mundo. Acho que algum bom Lorde possa precisar de um homem que teve a espada à serviço da Força do Rei de Krennix. Apesar dos tempos difíceis, a boa fama da corporação continua.

- “Ó, lá vão os mais bravos dos soldados/ Que nada temem e devotam suas espadas ao rei / Para a glória sangrenta marcham lado a lado/ Eu em minha vida, os homens de Krennix jamais esquecerei!” – Cantarolou Aleff, como as mães que ninavam suas crianças nas incertas noites da guerra – Esses tempos são passado, a glória não existe mais. Talvez nunca nem tenha existido. Mas como você disse, o nome tem força. Acho que iria com você.

- Eu ouvia os velhos falando sobre Swandia quando você chegou. Imaginam eles que a glória do reino deles vai desmoronar com o novo rei que subir ao trono em breve, em Freya. Eu não acho que isso vá acontecer. E você?
- Não.

- Então, o que você acha de irmos para lá? Dizem que em Talanas as patrulha de fronteira aceitam de bom grado qualquer um disposto a trabalhar, até mesmo krennixes desesperados – O riso saiu mais fácil do que ele imaginaria, e com isso sentiu-se menos miserável.

- É tentador – Concordou Aleff sorrindo com o canto da boca – Os Lordes de Talanas costumam ser generosos com homens leais. Há mais comida. E bons bordéis, até porque bordéis existem em todos os lugares.

- E vinho decente, eu espero.

            Isso conseguiu arrancar uma gargalhada de Aleff, que Sylf imaginou ter sido ouvida até na péssima adega de Lyta. Ele engoliu mais alguns pedaços de pão e despediu-se do amigo, pois já estava na hora de suas rondas.
            Atravessou outra porta e tomou um comprido corredor escuro que saía no pátio de treinos. Ali alguns recrutas eram massacrados pela brutalidade do mesmo homem com cara de tijolo que o recebera nesse mesmo lugar dez anos antes. Ele desferia golpes com a espada cega com uma violência contra os velhos e lascados escudos de carvalho que aqueles pobres rapazes não conseguiam suportar mantendo-se em pé, caindo ao chão a cada nova investida. “A noite deles vai ser dura pela dor nos braços” Sylf sorriu um sorriso triste, às vezes se pagava imaginando que as dores que sentia nos braços ainda eram as mesmas de seus meses de treinamento.
            Mas a dor era o de menos, ele se lembrava. Os berros e ofensas do treinador que eram o problema de verdade. Sylf nunca desmoronou na frente dele, as poucas vezes que chorara de verdade foram em sua cama embaixo dos cobertores, longe dos olhos zombeteiros e sempre alertas dos companheiros. Mas alguns não tinham a mesma força, e caíam em um choro copioso e deprimente nos primeiros dias. Os que não foram embora correndo no mesmo minuto passaram pelos piores dias de suas vidas. A crueldade do instrutor só aumentava, e a zombaria sem piedade dos outros rapazes os matava um pouco a cada.
            “Sander”
            A lembrança daquele nome fez Sylf engolir um seco. O pobre menino, o mais miserável que já entrara por aqueles portões. Franzino demais, fraco demais, medroso demais. Se bem lembrava só estava lá por seus pais terem perecido durante a Praga de Lótus. “Algumas pragas levam a vida das pessoas, mas também destroem com as de quem sobrevive a elas”.
            Aquele dia sombrio, como uma garoa chata que insistia em cair desde o clarear do dia até o anoitecer, jamais seria esquecido pelos homens da Força que praticavam no pátio ou circulavam no ir e vir das rondas. A antiga torre do comando, que subia por um dos muros do palácio do rei, continuava lá, serena e plácida, até hoje. Naquele dia molhado e de calafrios que percorriam as espinhas, Sander, de alguma maneira nunca descoberta, escalou a torre até o topo. Diziam que ele ficara vários minutos lá em cima, como vento e a garoa molhando seu rosto, como se lavando as lágrimas e aliviando a dor das feridas.
            E então se jogou. Sem nenhum sinal, nenhum grito ou últimas palavras. Voou por alguns poucos instantes, até que o chão de pedras da base da torre colocou fim ao seu tormento. Por algum tipo estranho de ironia o ventou parou no mesmo momento, e por isso a garoa fraca demais não conseguiu limpar o sangue que espirrou no rosto de Sylf, que estava a poucos passos de onde Sander morrera.
            Aqueles filetes mornos escorriam lentos pela sua face, como se fossem pequenas línguas que o lambiam enquanto observava sem reação o que sobrara do rapaz com quem dividira um quarto.
            Mesmo tantos anos depois, olhar para aquela torre ainda era difícil. Mas como seu dever à cumprir estava lá, não tinha como evitar.
            Atravessou o pátio com passadas largas que faziam a poeira do chão se levantar em nuvens que rodopiavam pelo ar. Cumprimentou alguns outros guardas e passou por cima do grosso umbral de pedra maciça da porta aberta que levava ao interior da torre. Lá dentro, em uma não muito grande salão sobriamente decorado, com não muito mais do que alguns quadros com a imagem de antigos comandantes e uma velha mesa descascada pelo tempo onde um homem de aparência exausta, com pele macilenta e olhos escurecidos pelas olheiras, trabalhava sobre uma papelada que parecia não ter fim.

- Guill, você ainda vai morrer aí sentado nessa mesa – Disse Sylf, parando bem na frente do homem de braços cruzados e o encarando.

- Essa é a minha esperança – Respondeu Guill, com uma voz dura e seca, sem erguer os olhos do que fazia.

- Você quem sabe – Fala Sylf dando de ombros. Pega alguns papéis da mesa, os lendo rapidamente e então pergunta – O que tem para mim hoje?

- Me deixa ver – Guill larga a pena que tinha entre os dedos e passa a remexer na papelada que tinha diante de si. Depois de alguns instantes acha a folha da escala do dia e fala – Até o meio dia você fica na ronda do Mercado, e até a noite na guarita central da muralha oeste. E mais uma noite livre, anda com sorte quanto a isso hein?

- Pego alguns dias seguidos de turno extra durante a noite, para ter mais folga depois.

- E essa folga que atende na Lyta tem nome? – Pergunta Guill, com um meio sorriso irônico no rosto hediondo.

- Não é da sua conta, bastardo impotente.

- Então espero que você despenque da muralha e morra – O sorriso sumira rápido como um relâmpago, dando lugar a uma cara amarrada e sombria – Vá trabalhar e me deixa cuidando do que é da minha conta. E prega essa porcaria de papel no mural antes que outro idiota infeliz venha me importunar.

- Às ordens, meu senhor – Diz Sylf fazendo uma mesura de escárnio.

            Ele pega o papel e o fixa no mural perto da entrada com um alfinete enferrujado que seja sua mão. Estava prestes a sair, quando a voz desagradável soou de novo e ainda mais mal humorada:

- Espera, esqueci de dizer que o comandante quer falar com você.

- E o que ele quer? – Pede Sylf, tendo se arrependido no instante seguinte de as palavras terem-lhe escapado.

- Vou eu saber? Tenho mais o que fazer do que ser garoto de recado, maldição! – Sua voz parecia um espirro intenso de vinagre velho indo diretamente para a garganta de Sylf – Agora anda que o velhaco não gostar de esperar.

            Sylf sabia bem disso. Sem dizer mais nada toma a escadaria circular que levava o topo da torre e à sala do Comandante Geral da Força Real Kenndrixe. Várias voltas depois chegava ao topo, passando na frente da porta fechada da sala comum dos Reais, a elite da Força, os homens que estavam mais próximos do rei e eram responsáveis por sua segurança. Entre eles, o mais importante e guarda-costas pessoal da majestade, o Escudo-do-Rei. “Que hoje podia ser Sami, Ah, e o cretino teria conseguido, ah se teria”. Dentro da sala se ouviam risos e o tinir de taças de prata, as quais com vinho de verdade dentro. E havia comida decente, diziam. Honra dos Reais, a qual os humildes Citadinos podiam apenas invejar naquele tempo ruim.
            Andou mais alguns metros e se viu diante da porta do escritório do comandante, o homem que há quase quarenta anos liderava a Força. Teve a impressão de ouvir conversas ali também, porém muito mais tênue e discreta. Ponderou por alguns instantes se deveria interromper a conversa do comandante com quem seja que estivesse lá dentro com ele.
            Decidiu por bater na porta. Deu três batidas curtas e suficientemente fortes. A voz calma do comandante soou lá de dentro:

- Entre, por favor.

- Senhor – Sylf bateu continência assim que fechou a porta atrás de si – Espero não ter interrompido nenhum assunto importante. Disseram-me que o senhor queria falar comigo.

- Isso mesmo Sylf, sente-se, por favor. Aceita uma taça de vinho? Este é humanamente tragável, sei dos venenos que dão para vocês tomarem lá embaixo. Tive meus anos de Citadino também.

            Era um homem decididamente no fim da vida o qual Sylf via sentado atrás de uma austera mesa de mogno negro. A pele do seu rosto estava enrugada e cheia de vincos, profundos como desfiladeiros, as mãos postas sobre a mesa mostravam-se castigadas pelas batalhas e pelo reumatismo, de dedos repuxados e meio tortos que outrora seguraram espadas e o levaram às vitórias gloriosas e derrotas amargas hoje eram quase inúteis.

- Seria um prazer, comandante Rudson – Diz Sylf, sentando-se em uma das grandes cadeiras almofadadas que ali estavam; logo após pegar a taça oferecida pelo outro homem que estava ali antes dele.

- Acredito que você conheça o senhor Garpaf – Falou o comandante.

            Sylf concordou com a cabeça. Garpaf era um dos conselheiros do rei Belear. Um homem muito magro e alto, esguio de um jeito estranho. Seu rosto era desenhado em feições angulosas e sérias, que muitas vezes projetavam sombras que lhe garantiam um aspecto assustador. O cabelo que descia até os ombros era liso e acinzentado, que junto a sua face sombria aumentava ainda mais a sensação de estranheza a ele.
            Enquanto o comandante Rudson falava mais algumas coisas aleatórias Sylf provava do vinho. E ele conhecia alguma coisa sobre o assunto, tendo aprendido com um camponês de uma terra qualquer quando esteve de passagem pela cidade e passara uma memorável noite de bebedeira na taberna de Lyta. Pelo sabor imaginava que fosse de Rontah, um reino um pouco mais à leste de Krennix, com montanhas não muito altas e de clima perfeito para plantar uvas. Não era nenhuma maravilha, porém muito melhor do que o tenebroso suco alcoólico da taberna de Lyta.

- Então Sylf, não quero tomar muito de seu tempo, sei que tem tarefas a cumprir – Disse o velho comandante – Me diga: você pretende continuar na Força agora que seu serviço compulsório está chegando ao fim?

            A pergunta o pegou de surpresa. Além de Aleff, tinha falado sobre o assunto com vários de outros companheiros que também estavam próximos de terminar o serviço compulsório, mas nunca chegou a se imaginar sendo indagado sobre isso pelo homem que só não era mais importante que o rei em pessoa.

- Tenho pensando a respeito disso, meu senhor – Respondeu ele tentando soar o mais normal possível e disfarçar o nervosismo – Porém ainda não cheguei a uma conclusão sobre o que fazer.

- Certo – O homem parecia cansado; fechou os olhos e se reclinou um pouco para trás na cadeira, com as pontas dos dedos unidas sobre a cintura. Tinha poucos cabelos, que já haviam deixado até de ser brancos, tornando-se de uma estranha cor suja e acinzentada, e que teimavam em ser rebeldes, ficando bagunçados e alguns espetados para o alto, dando ao velho soldado um ar de completa senilidade. Abriu os olhos e com a sua voz pesada e arrastada falou – Vou direto ao ponto: quero que você me suceda no comando da Força.

            Por um momento Sylf achou que o vinho que bebera tinha alguma coisa estranha dentro que o fizera ter alucinações. Ficara sem reação, perplexo, apenas observando fixamente o comandante Rudson sem saber o que dizer. “Isso é impossível, esse homem perdeu completamente o senso de realidade”, pensou ele, quase que chocado.

- Senhor – Finalmente falou Sylf, titubeante, depois de mais algum tempo sem saber o que dizer – Eu definitivamente não sou a pessoa mais indicada para esse cargo. Eu não passo de um mero Citadino.

- Todos os homens que ao longo dos séculos sentaram nessa mesma cadeira começaram exatamente assim.

- Mas... Eu não sou nobre... Nunca me destaquei em batalhas... Nem mesmo me candidatei a uma vaga nos Reais e....

- Não me fale daquele bando de estúpidos, que apenas gabam-se de seu cargo e prestígio e deixam de lado sua verdadeira missão: proteger o rei e a família real a qualquer custo – Rudson parou e fez um silêncio reflexivo, respirando muito profundamente, até que continuou – Eu vou completar oitenta e sete anos em algumas semanas. Desses, quase setenta servindo a Força. Sinto que meus dias cem chegando ao fim. E sabe o que eu vejo? Incerteza sobre o futuro dessa corporação e reino. Sou do tempo que nossos homens eram heróis, hoje não passamos de guardinhas que separaram brigas na rua e que separam o rei de seu povo. Eu vejo essa instituição tão antiga ruir, e não posso fazer nada além de escolher um sucessor. E por que eu escolheria algum daqueles Reais estúpidos?

-Perdoe-me a insolência senhor – Sylf tentava controlar a tensão e medir as palavras ao mesmo tempo – Mas acredito que chegou o à Real foi ter qualidades que o tornem digno do cargo.

- Ótimas qualidades, como o ouro do pai da maioria deles. Que não caiu na minha mão, diga-se de passagem, mas do nosso amado rei. Escute-me, meu filho: esses dois olhos que tenho estão muito velhos e cansados, verdade, mas eles ainda enxergam. Enxergam os exercícios no pátio, enxergam as rondas nas ruas e as ações mais agressivas. Você diz que nunca se destacou. Engana-se, mais de uma vez o vi liderando uma incursão contra saltimbancos nos arredores da cidade, controlando confusões grandes, na sala comum os outros guardas o ouvem e o estimam, e em na guerra já o vi matando mais homens que qualquer cavaleiro condecorado e de sangue puro. Não se engane; este corpo está chegando ao fim da linha, mas ainda posso andar, e ver e ouvir. E eu sinto, há tempos, que você homem certo para me substituir nesse cargo, e manter a honra de nossa corporação. O que me diz?

            “E então velho, o que acha disso?” Sylf tinha um buraco no estomago e sentia-se perdido. “Apesar de tudo, posso chegar tão longe quanto Sami chegaria.” Não sabia para onde os mortos quando à hora final chegavam, muito menos se, lá onde isso fosse, os mortos o podiam lhe ouvir, mas mesmo assim achava que seu finado pai poderia talvez sentir uma pontinha de orgulho. Mas a convicção para dizer sim lhe falhava.
            Ele sentia que aquela não era sua vida, que ali não era seu lugar, que estaria roubando um posto de privilégio de alguém que mereceria de verdade. Uma vozinha fina e distante sussurrava em seu ouvido que ele estava apenas tomando o lugar de Sami no mundo, querendo ser o que ele com certeza seria, muito mais do que um sapateiro decadente. Parecia que por baixo de sua pelo borbulhava um Sami, disfarçado de Sylf.
            Mas ao mesmo tempo era uma proposta tentadora. De repente tudo poderia ter sentido, e no final das contas não teria apenas jogado dez anos de vida no lixo.
            A cabeça começava a doer novamente.

- Comandante, eu sinceramente não sei o que responder.

- Tudo bem, te dou tempo para responder. Reflita bem, durma sobre o assunto. Garanto que você há de fazer a escolha certa.

- Assim espero, senhor – Concordou Sylf, hesitante.

- Já reparei em você também, rapaz – Comentou Garpaf, finalmente proferindo algum som desde o momento que Sylf entrara na sala – E permita-me dizer que a escolha do comandante Rudson é mais do que acertada.

- Sinto-me honrado, senhor conselheiro.

- Ora nada formalismos. Garpaf apenas, por favor. Prefiro ser menos formal com quem sirvo quando estamos longe do centro do poder.

- Tudo bem, Garpaf.

- Garpaf... Garpaf... – Disse o comandante, novamente fechando os olhos e se reclinando na cadeira, e agora também mexendo os dedos da mão no ar como se contasse algo que se ele conseguia ver – Esse rapaz é o homem certo que vai derrubar Swandia quando o novo e fraco subir ao trono. Ah, meu sonho tão antigo...

            “Completamente louco”
            Sylf achava que atrás daquelas pálpebras cerradas o velho e senil homem recordava seus dias de glória. Com os dedos errantes no ar buscava em um desespero débil alcança-las novamente. Por um momento Sylf se viu desse mesmo jeito, muitos e muitos anos depois, e teve medo. “De que adiantam glórias se o tempo e a velhice nos tiram tudo sem piedade?”. Sentiu suas entranhas embrulhando. 

- Meu senhor comandante – Disse ele tentando soar calmo e sensato – Swandia não luta uma guerra há séculos, mas a arte da guerra continua viva. E mesmo um rei tolo e fraco conseguiria um exército poderoso com tantos recursos como Swandia tem.

- Eis um novo motivo para seres comandante: bom senso – Garpaf abriu um estreito e estranho sorriso – A insensatez de muitos homens antes de nós acabou por arruinar este reino.

- Mas...
            Antes que conseguisse dizer qualquer outra coisa, o comandante caiu no sono, e ficou ali sentado, respirando de forma cadenciada, e balançando suavemente de um lado para o outro.  Garpaf soltou uma risada e disse para Sylf:

- Sim, ele está velho demais e aos poucos está deixando para trás a vida de sanidade mental. Mas o que ele falou é sério, ele quer que você o suceda no comando. Era justamente sobre isso que falávamos quando você bateu na porta. E naquele momento ele estava bastante lúcido, bem mais do que eu me acostumei a vê-lo nos últimos meses. Minha opinião sobre você também contou um pouco para ele se decidir por completo.

- E como você sabe tanto sobre mim? Se bem me recordo, quase nunca o vejo circulando pela cidade. Pelo menos não nos meus turnos.

-Ora – Respondeu Garpaf com um sorriso felino – As torres dessa cidade são altas, e sempre existe alguma janela discreta para quem gosta de observar a vida seguindo seu rumo natural. E ouvidos sempre podem ter extensões.

- Acho que compreendo, então.  

- Claro que sim, você é um jovem esperto.

            Sylf não conseguia tirar os olhos da figura triste do que mais parecia um fantasma que estava sentado a sua frente. “Uma lembrança em forma de homem, talvez”.
            Uma lembrança que se apossara daquele corpo velho e moribundo, e se recusava a ir embora. Ele se pegou pensando então qual lembrança seria a que tomaria seu corpo e o assombraria na velhice, talvez sentado naquela mesma cadeira estofada atrás da mesma mesa austera. A figura do irmão? A decepção e agonia do fim da vida de seu pai? O rosto da mãe que mal conhecera e do qual apenas lembrava de fragmentos? Os olhos apavorados dos homens de quem tirou a vida na guerra? Wanda e seus dedos suaves?
            Estava em uma encruzilhada, e sem qualquer certeza de qual caminho tomar. E qualquer um desses caminhos o levaria direto para o desconhecido. E ele temia o desconhecido tanto quanto temia o silêncio. Ser mero Citadino, guerrear vez ou outra, outrora filho de sapateiro e homem de Krennix acima de tudo era o máximo que ele sabia sobre a vida. Conhecer o mundo além das fronteiras do lar ou ascender na cadeia do poder o deixava tenso de maneiras iguais. Sentia bem em seu âmago que a liberdade que ele tanto sonhava talvez nunca viesse a existir de verdade, fosse qual fosse o caminho que tomaria na encruzilhada.
            Nesse momento deu-se conta que o que guiara sua vida desde sempre era justamente esse medo do desconhecido. “Quem sabe seja assim para todos os homens, no final das contas”.
            Pensou ter ouvido Garpaf dizer alguma coisa, mas não entendeu nada.

- Desculpe, eu me distraí e... – Quando olhou para o lado viu a outra cadeira vazia, e sobre uma mesinha mais ao lado a taça vazia que estivera nas mãos de Garpaf.

            O velho comandante continuava em seu sono profundo, roncando baixinho e se mexendo de vez em quando.
            Sylf, um tanto confuso, resolve ir embora dali. Colocou a taça que ainda segurava ao lado da de Garpaf após ter tomado mais um generoso gole. Caminhou com passou calmos até a porta, e tentou fecha-la com o menor barulho que conseguisse. Desceu a escura escadaria circular, passou pelo saguão sem dar qualquer atenção para Guill e seus resmungos mal humorados.
            O ar fresco do pátio inundou os pulmões de Sylf quando ele respirou profundamente assim que chegou ao lado de fora. Sua cabeça ainda doía, agora um pouco menos, mas continuava. Seus pensamentos eram como um tornado sem rosto definido, misturados e que não se acalmariam tão cedo. Os recrutas seguiam com seu treinamento, outros homens seguiam com seus exercícios de rotina, os guardas iam e vinham de suas rondas e deveres. Tudo parecia normal. Tudo em seu lugar. A vida seguia mansamente, apesar de tudo, seu curso normal. Mas para Sylf parecia que o mundo tinha sido virado de cabeça para baixo e sacudido até que tudo estivesse fora de seu lugar. Ficou remoendo essa sensação durante todo o restante da manhã que passara fazendo a ronda pelo Mercado.
            O Mercado era uma imensa praça a céu aberto bem no centro da cidade. Os comerciantes ficavam em espaços esculpidos em pedra bruta, rochas quase cônicas que brotavam do chão e subiam até há cinco ou seis metros de altura, e que se enfileiravam ao redor da praça formando um grande círculo que deixava o lugar parecendo uma arena de lutas. Essas pedras estavam ali desde sempre, segundos os registros oficiais dos sábios do reino. Elas já eram parte da paisagem da vila que estivera ali muito antes de Krennix florescer. As antigas lendas diziam que um dia foram os chifres de bestas terríveis que assolavam o lugar, destruindo colheitas, matando o gado e devorando as pessoas. Mas então um bruxo muito poderoso, que ninguém conhecia nem sabia de onde viera, chegou e lutou sozinho contra o terrível bando e o derrotou, enterrando-os apenas com os chifres de fora para que seu feito jamais fosse esquecido.
            “Se a história é real, ele conseguiu” imaginou Sylf quando se pegou observando as grandes pedras, deixando de lado um pouco suas preocupações. Era uma das primeiras lendas que ouvira quando era pequeno, e ao longo da vida a ouvira tantas vezes que se tornava impossível não pensar nela volta e meia. Ainda mais depois de ter entrado para a Força e ter que quase todos os dias passar por ali para fazer a ronda.
            E ele gostava de fazer a ronda ali. O Mercado nunca ficava silencioso demais, a qualquer hora do dia ali estavam alguns comerciantes de todos os cantos do reino, vendendo algum vinho, queijos verduras e frutas, carne e vários tipos de defumados. Pequenos animais, como aves estranhas de terras mais estranhas ainda, cães e gatos, cobras e lagartos. Mesmo em tempos difíceis como aqueles sempre havia movimento ali, com gritos, xingamentos, ofertas cantadas e um falatório que deixaria ouvidos pouco acostumados quase enlouquecidos. Os produtos eram muito ruins, em pouca quantidade e com preços absurdos, mas mesmo assim o coração da cidade continuava a pulsar intensamente, sem nunca parar. Sem nunca silenciar.
            De uma volta. Outra. Mais uma. Era um dia calmo, onde alem da barulheira, nada fora do comum acontecia. Caminhou uma vez para o centro da praça, passando por algumas tendas que vendiam livros antigos, velas e facas reluzentes, muitas pessoas que andavam de um lado para outro e também por alguns companheiros de Força.
            Dos olhos tristes da mulher de bronze jorrava água cristalina que caía em uma larga piscina quadrada e rasa, com fundo de azulejos coloridos. Ela segurava um pequeno e cordeiro nos braços, e estava deitada sobre uma rocha, com a cabeça reclinada para baixo, como se olhando para o animal. A estátua reluzia fracamente sob o sol que enfraquecera; após o céu ter ficado coberto por compridas nuvens estriadas.
            Ali, sentado na borda da piscina, havia um outro guarda, com o olhar fixo no chão e uma expressão melancólica no rosto. Um tipo simples, de rosto comum, cabelos castanhos assim como seus olhos, e que em uma multidão não seria mais do que apenas mais um sem ser notado. Sylf sentou-se ao seu lado, por alguns instantes prestando atenção na agitação das crianças que brincavam na água do outro lado da fonte. “Aproveitem a inocência enquanto ela durar”.

- Um dos dias chatos – Disse o outro guarda ali sentado – Não acha?

- O que muito poderia acontecer? Um sujeito abrir a barriga de um peixeiro por achar que ele o está roubando no preço do arenque?

- Isso acontece a toda hora. E você sabe disso.

- Verdade – Admite Sylf, olhando para o horizonte – Parece que eu quero fechar os olhos para esses tempos difíceis no qual vivemos.

            “Tempos difíceis”. Por um instante parou para pensar na quantidade de vezes que usara essas palavras naquele dia que nem estava na metade ainda. E de fato eram mesmo. A algazarra das crianças ali perto não era mais do que um meio de esquecer a fome, deixar de lado a angústia de seus pais sem trabalho em casa. Fazer de conta que a vida ainda era boa. “Será que os espólios de uma invasão em Swandia mudariam o futuro dessas crianças?” O ouro e a prata dos ricos e gordos senhores swandis talvez trouxessem os tempos de fartura de volta àquela gente miserável. Se ele fosse comandante, poderia fazer acontecer.
            Mas também não tinha certeza se a barriga cheia faria essas crianças esquecerem dos pais e irmãos que poderiam perder nessa guerra. E como ela provavelmente fracassaria grosseiramente nem teriam o que pôr na barriga de qualquer maneira. 
            Olhou para seu companheiro de relance e reparou que ele tomava da água da fonte com uma pequena caneca de latão.

- Clye – Começou ele – Se eu fosse você não faria isso, ontem à noite espantei um sujeito mijando dentro do reservatório de água, e você be sabe que a água dessa fonte é trocada com a de lá toda manhã.

            Clye mirou um olhar torto para Sylf, enquanto terminava de engolir o que já não conseguiria mais cuspir. Após isso deu uma risada e atirou a caneca vazia na cabeça de Sylf. Levantou-se e deu algumas pequenas voltas em círculos, enquanto esticava os braços.

- Sabe Sylf, acho que vou virar mercenário daqui dois anos quando meu serviço compulsório terminar.

- Mercenário? Sério?

- Sim. É o mais próximo que eu entendo por liberdade.

- E quanto ao juramento? Você, como todo mundo, jurou que mesmo ao deixar a Força honraria sua espada só para fins nobres.

- E existe fim mais nobre que a satisfação pessoal de um homem?

- Alguns diriam que sim.

- E eles que enfiem sua nobreza no rabo – Disse Clye, com um tom duro, sentando-se novamente ao lado de Sylf – Estou cansado. Cansado de juramentos. De ser preso ao rei e suas vontades estúpidas. Um mercenário cumpre um contrato, recebe seu pagamento e era isso. Sem outras amarras de honra e lealdade.

- E você pretende ir para onde ser um homem livre?

- O mundo é grande, e sempre haverá algum lorde precisando de serviço sujo que seus cavaleirinhos cheios de honra não podem fazer.

            Nisso começa um pequeno tumulto ao redor de uma barraca mais adiante. Ali onde os guardas estavam pareça que dois homens brigavam aos punhos por alguma trivialidade qualquer. Sylf ia se levantando quando Clye falou:

- Deixa isso comigo, é coisa pequena, e no mais ali é a minha área do mesmo. Até mais Sylf.

- Até. Vê se não mata ninguém dessa vez.

- Não prometo nada.

            Clye logo sumiu dos olhos de Sylf misturando-se no bolo de gente que se formou em volta dos dois brigões. Ele pouco se interessou por aquilo, há anos que separar brigas assim perdera a graça para ele. Voltou um pouco sua atenção novamente para a água da fonte e ficou pensando na estranha figura que vira se aliviando no reservatório, que ficava em uma colina um pouco afastada do centro da cidade, e no meio do caminho para a taberna de Lyta. Krennix era toda cortada por dutos subterrâneos que levavam aquela água para todos os cantos, impulsionados por uma engenhoca movida à bois inventada pelos velhos mestres da Escola Real muito tempo antes.
            Os dutos devem ser imundos depois de séculos, mas estão embaixo da terra e ninguém os vê; Já a imagem de um sujeito gordo e talvez mais bêbado do que eu mijando na água que todos tomam já é mais complicada de se tirar da cabeça”.
            Ele tinha essa imagem mais ou menos clara na lembrança, mas mesmo assim não tinha plena convicção se aquilo fora verdade ou apenas um sonho embalado pelo veneno com gosto de vinho que tomara aos litros. As marcas de sangue na espada podiam ser de algum outro vagabundo que cruzara seu caminho e ele não lembrava.
            A manhã seguiu sem nenhum outro incidente. Quando o grande relógio da torre do castelo deu a badalada do meio dia Sylf voltou para a sede da Força para almoçar. Engoliu a carne salgada fria e alguns feijões, acompanhados de alguns vegetais em conserva difíceis de identificar. A cerveja do almoço estava um pouco melhor; era uma escura e grossa que dava algum prazer ao ser tomada. “Um dia de sorte”.
            Ele terminou de comer e rumou para seu turno na muralha. Naquela altura do dia o céu já estava totalmente encoberto, o sol sumira, mas o ar continuava consideravelmente quente. Um vento fraco, porém constante e sibilante, soprava e fazia com que a capa de Sylf balançasse enquanto caminhava.
            Atravessou algumas vielas e ruas estreitas até chegar à muralha oeste. Pelo caminho viu alguns de seus amigos de infância, que tomaram outros caminhos na vida. Cruzou com Jord, que se tornara um notável artesão em couro, mas que continuava tão humilde quanto seu pai vivera antes dele. Viu também Thar, que agora era um respeitável pai de família e forjava pás e enxadas. Já Ken se dera bem, abriu um bordel para um público de gosto exótico e enriquecera, mas se recusava a deixar o beco onde nasceu e cresceu. Apenas Pater não mudara em absolutamente nada, continuava sendo o maior e mais notório bêbado que alguma Krennix já conhecera. Sylf não conseguia lembrar dele estando sóbrio em algum momento depois dos doze anos.
            Quando pequenos eles andavam em bando e prometeram nunca crescer. Mas a vida não leva em consideração as promessas das crianças.
            Ficou escorado na muralha esperando que o outro guarda descesse pela escada que vinha lá do alto. Cumprimentou este quando chegou e logo começou a longa subida de mais de cinqüenta metros. Antes de chegar à metade do caminho já sentia que lá em cima o vento soprava com muita força e começava a esfriar.
            Chegou lá no alto e caminhou alguns metros pela borda larga da muralha, com o vento esvoaçando sua capa e bagunçando seus cabelos. Entrou na guarita e sentou-se no banco. Deu uma olhada em volta e viu que não faltava nada, as bandeiras sinalizadoras para viajantes estavam ali, assim como o berrante e a besta ao lado da aljava de flechas para eventuais necessidades. Em algum canto sabia que estava jogado um livro velho que nunca terminara de ler. O procurou até achar, e assim teve um companheiro durante as horas tediosas que o aguardavam.
            Geralmente não acontecia nada ali. Ainda que essa fosse a muralha com a entrada principal para a cidade. No máximo alguma caravana passava por perto, ou um enviado ou comitiva de outro reino chegava para alguma missão diplomática. No mais, o azarado que pegava esse turno apenas ficava olhando a imensidão de pastos e plantações espalhadas até o horizonte, com alguns pequenos vilarejos pontilhando a paisagem ao longe. Um pouco mais ao sul corriam as águas caudalosas e inquietas do Sujo, um rio que atravessava inúmeros reinos desde os confins do norte do continente até desembocar na Baía Eldessiana em Swandia. Se ele olhasse mais ao norte, muito ao longe, ele poderia ver a fina e esguia silhueta de uma cordilheira, que na realidade era imensa, com picos tão altos que estavam em um inverno sem fim. Sylf havia lido alguma vez, quando era mais novo e passava mais tempo na biblioteca da sede do que nos bordéis, que aquelas montanhas separavam duas das províncias de Swandia; Talanas, o braço leste do reino, de Barn, a áspera terra do carvão. Era um dos raros orgulhos dele saber que era um dos poucos homens da força que sabia ler e escrever, mesmo com a origem que tinha.
            Ele alternava repetidamente o olhar entre o livro e essa paisagem bucólica onde o tempo parecia passar muito mais devagar. Às vezes mirava por mais tempo o oeste, lá para onde o sol ia marchando, para Swandia. O reino perfeito e inalcançável. A terra que o rei e seus generais ansiavam em conquistar com sangue e morte, mas que não eram tão tolos de tentar. Ele podia se tornar um dos que encabeçariam essa jornada suicida, se acontecesse. “Morreria com glória ao menos”, considerou, “E todos lembrariam do louco comandante que liderou suas tropas para a morte no oeste”.  
            Uma dorzinha na cabeça teimava em aparecer de tempos em tempos naquela tarde, e o vento forte que carregava poeira não ajudava em nada. Mas não fora nada que o incomodasse demais, e assim tarde passou sem acontecer absolutamente mais nada. Apenas o céu que foi fechando mais e mais, com nuvens que foram enegrecendo no horizonte e avançavam com intensidade, empurradas pelo vento que soprava com cada vez mais força.
            Sylf, pouco antes de deixar o posto ao final de seu turno, sentiu a mais sincera pena ao pensar no próximo infeliz que teria de ficar ali empoleirado durante a tempestade que se avizinhava. “Se eu for estúpido o suficiente de aceitar a proposta do velho Rudson vou mudar algumas coisas sobre essas escalas absurdas”, pensou ele quando deixava a guarita e o primeiro trovão explodiu com uma violência assustadora, fazendo a pedra bruta da muralha tremer. Sylf achou melhor se apressar antes que as palavras agourentas de Guill virassem verdade. “Preciso do calor dos braços da Wanda, talvez ela me ajude a decidir o que...
            Quando deu o primeiro passo sobre a borda da muralha, em direção à escada, sentiu uma dor brutal em seu ombro esquerdo. Por um segundo não soube o que fazer, ficando apenas parado olhando para o céu que começara a desabar em chicotadas cruéis de chuva e granizo. Foi quando sentiu outra, dessa vez no meio do peito, que voltou para a realidade e se deu conta do que estava acontecendo. A flecha mais grossa que já vira na vida atravessara o peitoral de aço que ele usava como se fosse de papel, e o sangue escorria por sua barriga e chegava à cintura e pernas. Mais uma o acertou na perna, e outra na coxa.
            Tudo acontecia tão rápido que ele não tinha reação. “Um ataque... mas... mas... como? De onde? Isso é impossível... preciso fazer algo...
            Voltou para dentro da guarita escura e tateou cegamente pelo berrante. Precisava avisar as tropas do que estava acontecendo. Quando o achou voltou para fora. Puxou um longo fôlego, implorando pela memória de seu pai e irmão que conseguisse fazer o instrumento soar mais alto que o vento e os trovões.
            E ele soprou com todas as suas forças, até que sua garganta quase sangrasse. Soprou desesperadamente. Soprava, soprava e soprava... até que parou.
            O ar simplesmente parou de passar quando uma flechada impiedosa atravessou o pescoço de Sylf. O berrante caiu de seus dedos, bateu sobre a borda da muralha e caiu na mancha cinzenta e disforme que estava logo abaixo formada pela chuva que caía tão grossa que parecia com nuvens. Entre o vento, a chuva e os trovões, ele ouvia gritos, o som de espadas se chocando, flechas zunindo pelo ar e pessoas desesperadas.
            Ele perdeu as contas de quantas flechas tinha fincadas em seu corpo, apenas sentia que não doía mais. Suas forças o deixaram, as pernas cederam e ele despencou.
            Enquanto caía pareceu aos seus olhos que estranhos vultos pulavam sobre a muralha, flutuando como se não tivessem peso nenhum. Mas a imagem foi sumindo, assim como todos os sons de antes. Ele mergulhava diretamente para tudo do que tinha mais medo, o desconhecido e o silêncio.
            Antes do fim, pensou ter visto o rosto de Sami. 


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