terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Blind Guardian - Beyond the Red Mirror





      
             Escrever sobre a sua banda favorita, aquela banda que significa muito para você e que realmente mexe com os seus sentimentos, é um negócio que pode ser bastante traiçoeiro. É muito fácil se perder em indulgência cega, deixar de lado a razão e colocar em um altar sagrado qualquer coisa que a sua banda favorita ponha no mercado, mesmo que seja visivelmente um produto de muito pouca qualidade.
            Mas eu acho que posso me considerar um sujeito de sorte, porque a minha banda favorita é o Blind Guardian.

            Estou eu aqui com uma página (quase) em branco na minha frente, com toda a lucidez do mundo, disposto a falar sobre este novo disco da minha banda favorita. Serei tendencioso? Serei indulgente e colocarei em um altar sagrado o que talvez não seja tudo isso? Bom, não sei. Isso vai depender de você que numa dessas estiver lendo essas linhas.
            Mas enfim, vamos lá.
            Praticamente quatro anos e meio de espera. Tem bandas que eu gosto que ficaram esse mesmo tempo sem lançar nada novo e isso pouco me importou. Mas o Blind Guardian é uma história diferente. Quando se trata daquela banda que ocupa muito do seu pensamento, do seu tempo e que é tecnicamente uma obsessão, quatro anos e meio se tornam uma eternidade angustiante, permeada por um silêncio capaz de te deixar completamente maluco.
            Mas ah, meu amigo, valeu a pena. Como valeu.
            Com o Blind Guardian sempre vale a pena cada segundo de espera. Esses camaradas de meia idade chegaram a um ponto de evolução musical onde transcenderam o simples lance do “yeaaaaaaaaah metal \m/” e alcançaram um patamar completamente novo e próprio, livrando-se das amarras e das imposições que o gênero acabou desenvolvendo ao longo dos anos. Os fãs que acompanham a banda desde o começo podem torcer o nariz, reclamar da produção, querer mais solos e menos pompa, podem querer que a banda torne-se um clone genérico de si mesma. E eu adoro muito como a banda frustra completamente essas expectativas. E eu digo isso por muito mais que apenas pela inserção de orquestra ou elementos progressivos, mas sim pela inquietude, pela vontade de explorar coisas novas, de se reinventar a todo o momento e deixar os fãs sem nunca saber pelo que esperar no próximo disco. O comodismo passa longe.
            Segue abaixo uma resposta do André, no AMA de Reddit que ele e o Hansi fizeram, a respeito da cena heavy metal atual, que representa muito bem isso que eu falei até agora. (clique para ampliar)



            Logo de cara, Beyond the Red Mirror começa provando essa tese toda. A introdução com um coral imenso de The Ninth Wave já é impressionante por si mesma, mas fica ainda mais impactante quando acaba e a música engrena uma camada de sons eletrônicos e efeitos sonoros que parecem saídos de um filme de ficção científica. Eu nunca imaginei o Blind Guardian fazendo isso. Foi algo completamente inesperado, que saltou na minha cara e me deixou sem palavras. Foi fantástico!
            E o resto da música é incrível também. Rica e cheia de camadas, que a cada nova audição te revela mais um segredo, algo novo e empolgante, cheia de complexidade, e com uma essência progressiva de dar inveja pra muitas bandas do gênero por aí. Por tudo isso e pelo refrão fácil e grudento, vai ser uma abertura fantástica para a próxima turnê.
Depois da estonteante abertura, vêm o single botando o pé na porta e com vontade. Twilight of the Gods saiu em dezembro e nem de longe era o prenúncio do que viria no disco, mas de qualquer forma é uma faixa que me empolgou muito e continua a me empolgar. Não é exatamente o que se possa chamar de cheia de originalidade, mind blowing e adjacências, mas mesmo assim, sem fugir tanto daquele estilo mais clássico de metal melódico (apesar da roupagem e produções bem diferentes do que se fazia nos anos 90), mostra um Blind Guardian em constante renovação e sempre buscando um ar fresco em suas composições.
Prophecies é decididamente a minha música favorita nesse disco. Não tem a complexidade e a enxurrada de elementos de The Ninth Wave ou Grand Parade, não é tão rápida e pesada como The Holy Grail. É algo estranho, algo de mágico que me atrai tanto. Tem uma estrutura quase imprevisível, que te joga de um lado para outro, te engana e te surpreende. Com um refrão tão diferente, simples e complexo ao mesmo tempo, que é contagiante. E ainda tem a rápida introdução numa vibe folk-rock-anos-sessenta sensacional. A atuação do Hansi é incrível, principalmente NAQUELE FINAL SENSACIONAL.
Meus amigos que preciosidade que é At the Edge of Time. Se o famigerado Projeto Orquestral™ for nessa mesma direção, eu já tenho a plena certeza de que vou amar cada segundo. Existe alquimia mais que perfeita entre heavy metal e música clássica, onde cada parte tem o seu lugar, o seu momento, sem se sobrepor ou um lado tirar o destaque do outro. Talvez eu esteja falando uma tremenda bobagem, mas eu sinto que muito da parte clássica dessa música tem influência de Bach, principalmente nas flautas e nos instrumentos de cordas, que me fazem pensar no Concerto de Brandemburgo Nº. 4. Uma das provas de que essa banda já é muito mais do que simplesmente metal, ou sinfônico ou progressivo, é um ponto onde a originalidade e a identidade se tornou exclusivamente do Blind Guardian. Honestamente nunca tinha ouvido nada parecido.


Eu acho simplesmente fantástico o começo de Ashes of Eternity. Me parece como uma espécie de gingado, um swing maroto, como se uma batida tribal africana tivesse sido traduzida para heavy metal (ok eu fui meio longe demais nessa, mas acho que deu pra entender a mensagem espiritual da coisa). Também adoro a estrutura traiçoeira, que flerta abertamente com o thrash e tem mais uma vez Hansi sendo um tremendo destaque com linhas vocais impecáveis, em uma letra inteligentemente construída pelo próprio.
Em algumas das versões do disco, entre Ashes of Eternity e The Holy Grail temos a bônus Distante Memories. Uma quase-balada pomposa e cheia de feeling, onde a banda basicamente diz “a gente curte Queen pra caralho!”. Aproveito o ensejo para falar da outra faixa bônus, Doom, uma música com uma vibe bem diferente, algo de metal mais clássico e bastante sombrio. Um fechamento bastante legal pra versão que conta com ela.
Sobre essas bônus é interessante notar que mesmo sendo claramente “menos” trabalhadas (não em um mau sentido), ainda são músicas de altíssima qualidade, o que mostra todo o empenho da banda em entregar um material muito acima da média. 
Agora temos a pedrada do disco. Uma música que muitíssimo bem poderia ter saído do Imaginations From the Other Side. The Holy Grail é definitivamente uma amostra de que a banda pode muito bem se aventurar musicalmente e ainda assim continuar fazendo músicas que honrem a herança dos primeiros discos. E o melhor de tudo: honrar essa herança sem ser uma cópia genérica de si mesma.
Ainda quanto a The Holy Grail, eu me sinto na obrigação de destacar a letra e como ela foi concebida. O Hansi é com certeza um dos melhores letristas do metal, e nesse caso ele criou uma letra que se fundiu com a melodia e o peso de uma forma surreal. Eu DEMANDO que toquem essa nos shows.
Muito bem, chegou o momento desse texto onde eu fico perdido. Eu não tenho a menor idéia de como começar a falar sobre The Throne. Sério mesmo, eu fico sem palavras com esse monstro orquestral. Eu andei lendo pela internet várias pessoas comparando essa música com And Then There Was Silence, o que eu acho bastante justo, apesar de não 100% correto. The Throne é tão épica quanto (e com metade do tempo), mas são duas músicas de abordagens bastante diferentes e grandiosas em suas próprias maneiras. Aqui temos uma música super sólida e coesa, que logo de cara começa nas alturas, mais uma vez mostrando a mistura impecável de heavy metal com música clássica, em um turbilhão intenso, que pega o ouvinte e o leva em uma aventura musical difícil de ser igualada. Um refrão simples, mas incrivelmente poderoso (estou abusando dos adjetivos, mas eu me importo? R: não, não me importo), daqueles que você acompanha até ficar sem fôlego. Encho a boca sem nenhum medo: uma verdadeira obra-prima.
Sacred Mind. Ok, talvez seja o ponto baixo do disco. Só que em um disco tão bom, mesmo o ponto baixo é um produto de altíssima qualidade. Em um update de outubro de 2013, o Hansi comentou sobre uma música que tinha uma introdução épica e triste, mas que depois se tornava uma montanha russa de velocidade e peso. Tenho certeza absoluta de que se tratava de Sacred Mind, porque ela é justamente isso. O que me incomoda nela é que no seu zênite fica faltando alguma coisa, como se houvesse um espacinho vazio que não tem como ignorar. Uma palavra ou duas no refrão? Um solo de guitarra? De bateria? Mais um pedaço brilhante de orquestra? Não sei, sinceramente não sei. Mas de qualquer forma ainda é uma canção muito boa e que tem potencial pra entrar nos sets da turnê e nem de longe compromete o disco como um todo.
É meio que um consenso entre todo mundo que tem algum mínimo conhecimento sobre música que o Queen foi uma das maiores e melhores banda de todos os tempos. Uma banda que transcendia o rock e mergulhava de cabeça no oceano de possibilidades do mundo musical e que influenciou milhares de jovens músicos ao redor do mundo. Com o Blind Guardian não seria diferente (e A Night at Opera é uma homenagem que faz jus ao seu homônimo). Em Beyond the Red Mirror inteiro se vêem pequenas referências e homenagens a eles, mas nada tão latente como em Miracle Machine. Uma balada singela e tocante apenas de voz, piano e alguns discretos instrumentos de corda. Quase como se fosse um recado dizendo “Essa é pra você Freddie”. E eu aposto que ele estaria sorrindo, onde quer que ele esteja depois dessa vida.
Ah, a cereja deste bolo. O André não estava exagerando quando disse que Grand Parade era a melhor composição da história da banda. Uma faixa nada menos que espetacular em todos os sentidos possíveis. É uma equação simples de se compreender: pegue o espírito e a atmosfera melancólica de Nighfall in Middle-Earth, adicione a grandiloqüência despudorada de A Night at Opera mais a finesse erudita de At the Edge of Time e você tem Grand Parade. O supra sumo da magia clássica com o peso e a velocidade do metal melódico, camadas e mais camadas tecidas com maestria, de se desdobram e se abrem em um boom emocionante. Uma epifania musical, que faz a sua alma transcender, abrir um sorriso sincero de alegria.
Beyond the Red Mirror não é um disco fácil. É muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, tem muitas camadas e reentrâncias, detalhes que só se revelam depois de uma dúzia de audição e uma imersão completa. É um disco ao qual você precisa se entregar; usar bons fones de ouvido, fechar os olhos e se deixar levar. É uma verdadeira experiência sensorial cuidadosamente construída em todos os seus aspectos. Demanda muita determinação e vontade, mas que recompensa com muita generosidade quem coloca empenho nessa empreitada.
Eu gosto de dizer que se trata também de um excepcional trabalho de metalinguagem. Seja musicalmente ou liricamente. Por causa da história que se seguiu a partir de Bright Eyes e And The Story Ends do Imaginations from the Other Side, pelos pequenos pedaços das letras que remetem ao que a banda já tratou no passado (mais uma vez: sem ser uma cópia genérica de si mesma), passagens instrumentais, a própria figura do espelho que é uma constante na trajetória da banda. Soa como se toda a discografia da banda fosse uma entidade una conectada por esse disco, como se as pontas soltas tivessem sido amarradas e um grande cenário maior tivesse se revelado.
Lá em 2010, eu tinha descrito o At the Edge of Time como o Blind Guardian tocando Blind Guardian. Comentei que a banda chegara a um momento de tanta identidade, que a sua música só poderia ser rotulada como Blind Guardian. Quatro anos e meio depois estou aqui com essa impressão mais reforçada do que nunca.
É Power Metal? É Metal Progressivo? É Metal Sinfônico? No final das contas, nada disso importa, afinal são apenas rótulos, e rótulos sempre serão agentes limitadores, criadores de barreiras, os fundamentos de dogmas sagrados que as mentes fechadas jamais ousarão questionar. Não, o Blind Guardian não é nada disso.
Uma das coisas mais legais da fantasia contemporânea é a saga chamada Malazan – Book of the Fallen, do escritor e historiador canadense Steven Erikson. Uma imensa e intricada história composta por 10 livros que se entrecruzam não de forma 100% linear, com centenas e centenas de personagens espalhados por um sem fim de terras e nações, com muito sangue, magia e guerra. No prefácio do primeiro livro, Gardens of the Moon, o autor comenta que depois de ter uma idéia de seriado recusada por um produtor, que a achou complexa e ousada demais e tê-lo aconselhado a investir em algo mais simples, ele decidiu tomar como regra em sua vida ser ambicioso e ousado em qualquer coisa que ele fosse fazer. O conselho que ele mesmo dá aos seus leitores é ter bolas de criar arte da forma como bem entenderem, por mais complexa e audaciosa que seja, sem ter medo de julgamentos e sem chorar por aceitação.
Acho que não preciso me alongar e me repetir, não? O Blind Guardian pura e simplesmente se desafia a cada novo disco, e sempre consegue se superar.
Então, acho que chamar esse texto de resenha seria errado. Eu sou um fã, um fã que gosta demais dessa banda para ser considerado completamente racional para dar uma opinião “embasada” musicalmente. Mas enfim, dane-se.   Para mim, esse texto significa algo muito mais importante do que uma análise, ou uma pagação de pau descarada. É um agradecimento.
Obrigado Blind Guardian. Meus mais sinceros e mais genuínos agradecimentos. Por ter feito esses quatro anos e meio valerem tanto a pena. Por ter feito aquele show memorável em setembro de 2011 que foi honestamente o melhor momento da minha vida inteira. Por ser essa parte tão importante da minha vida, que eu já baguncei tanto por causa dos meus problemas, o meu refúgio e os melhores amigos que eu poderia ter. Obrigado, de coração :)

E o que o futuro nos reserva? Bom, eu não sei. Apenas posso dizer que desde já estou muito ansioso. 

4 comentários:

Marlon Prudente disse...

Excelente texto, fico acradecido por poder compartilhar conosco do Blind Guardian Brasil, e ficamos felizes de poder compartilhar um texto tão bonito sobre nossa banda favorita.

Leonardo Pontara Basilio disse...

Hey, cara, adorei seu agradecimento-resenha.
Esse álbum me tocou desde o primeiro momento quando comecei a escuta-lo, com a incrível Ninth Wave, quando chegou aquele refrão não posso negar que me emocionei.
Realmente é o álbum que mais gostei deles.

Christian Guedes disse...

Cara, não sei nem como expressar minha admiração instantânea por você quando eu acabei de ler esse texto. Acho que todos os fãs de Blind Guardian do mundo deveriam ler. Foi o melhor texto sobre um álbum da banda que já li em toda minha vida. Parabéns!!! Você conseguiu expressar praticamente tudo o que eu sinto por essa obra prima que é o Beyond The Red Mirror. Você tem muito talento cara. Mais uma vez... Parabéns!!!

Júlio disse...

Muito obrigado pelos comentários, fico feliz que tenham gostado :)