sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Raiva

Enraged and full of anger.

Sábias palavras proferidas, ou melhor, cuspidas, por Rob Halford no clássico dos clássicos Painkiller.

Nos últimos tempos tenho me sentido assim. Bem, eu não sou meio homem - meio máquina, nem devasto planetas e muito menos cuspo fogo e fumaça. Mas de qualquer jeito ando furioso e cheio de raiva. E isso me impressiona, já que na maioria das vezes, sempre fui quase um monge tibetano quase atingindo o Nirvana (certo, isso é um exagero cretino). Na verdade, como qualquer mortal comum, tenho meus momentos de raiva. E o que me intriga nisso é a forma como tudo ocorre. Perturbadoramente silenciosa.

É algo quase cientificamente comprovado (ou que qualquer um com um pouco de senso de lógica pode reparar por conta própria): Os sentimentos de raiva e ira servem como válvula de escape para as pressões que se acumulam, misturadas a medos, frustrações e tristezas. Botar tudo para fora num grito raivoso é a coisa mas natural do mundo. E bem por isso que fico até com medo dessa minha raiva muda.

O pequeno universo que e cerca a cada dia se mostra mais e mais nojento. A épica e monstruosa guerra de egos com a qual eu (e convenhamos, quase todo mundo) se depara todo o dia vai tomando proporções devastadoras, e que me deixam absolutamente decepcionado. Detalhes são irrisórios nessas horas, o senso comum inconsciente indica para qualquer um que tipo de exemplos tomar, e por isso nomes e fatos são tão inúteis quanto tentar derreter ouro com um fósforo.

O cinismo e a hipocrisia nunca andaram tão próximos. É lamentável ver e ouvir coisas tão desagradáveis e não ter sequer estômago para tentar dizer algo em contra-partida; outro fator para minha raiva interior . Estar cercado de futilidade é um martírio, mesmo eu não querendo ter qualquer pretensão canônica, e por isso cada novo dia vem mais cheio de duras provações. O não-senso é enojante, viver alienado é tão comum que os conceitos coloniais, medievais até, prosperam sem serem questionados, endeusados como verdades irrevogáveis e dogmas eternos e monoliticamente postados sobre qualquer cultura. O horizonte dos olhos é o limite, não existe universo aquém de seus plexos solares e ebriedades sórdidas. Mundo atulhados de limitações, onde olhar para o céu, e imaginar algo além de tudo o que já foi visto, é um crime.
A decepção acaba sendo algo de todo corriqueiro. Ir fazer alguma coisa que já sabe que será frustrada, sem sentido, vazia e estúpida. O desânimo tem força, muita força; ele abre caminho para o espelho da alma. É no momento de decepção, de tristeza e melancolia que nos vemos melhor, meditamos, buscamos nossas respostas. E como tudo o que quero é antagônico ao que convivo, a decepção e o desalento andam sempre soturnas, por perto, rondando como um caçador experiente. E essa estranha raiva se desenha com contornos perigosos, já que não sei como ela vai acabar sendo expurgada um dia. A revolta silenciosa, repleta de ódio que borbulha discretamente no âmago, vai ficar por ali à espreita, apenas aguardando sabe-se-lá-o-que
Cada demonstração de ignorância, de futilidade, de vazio interior, faz com que mais um pouco da minha vontade seja derrubada. O ímpeto segue forte, meus sonhos e minhas metas são inatingíveis, mas o ânimo para lidar com os semelhantes de meio, ah, esse esmorece lentamente, até que chegue o dia que ele desmanchará por completo.
O mundo é absurdamente grande. E saber disso é um consolo igualmente grande. Só de imaginar a sensação de respirar novos ares, limpos e revigorados, a sensação de raiva diminui. Diminui, mas não some, como nunca, jamais, irá sumir.

Um comentário:

Bard disse...

Foda... e o pior é que o mundo é absurdamente grande, mas isso nao te impede de se decepcionar aonde quer que se vá.