Mas
eu acho que posso me considerar um sujeito de sorte, porque a minha banda
favorita é o Blind Guardian.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2015
Blind Guardian - Beyond the Red Mirror
quinta-feira, 15 de janeiro de 2015
Marco Polo - A Primeira Temporada
Vivemos todos
sob a sombra dos que vieram antes de nós. E no futuro as pessoas viverão sob a
nossa sombra. De uma maneira ou de outra, seja sob a sombra de nossos sucessos
ou de nossos fracassos. É a sombra do legado.
Marco Polo
dramatiza ficcionalmente as aventuras do explorador italiano do século XIII que
desbravou o oriente e assombrou as cortes européias com as histórias de suas
aventuras. Mas no fundo, o cerne desta fantástica produção original da Netflix
é algo mais sensível e humano do que isso: é sobre legado.
Marco tenta
viver a altura do legado da família Polo, que seu pai e tio cultivaram ao longo
dos anos com viagens pelas rotas de comércio, juntando riquezas e histórias que
engrandeceram tal nome. Da mesma forma vive o grande imperador mongol Kublai
Khan, sob a sombra e o fantasma de Genghis e seus feitos heróicos que
construiriam o maior império do mundo.
Esses dois
personagens, de mundos tão distintos e distantes, com vidas e experiências tão
diferentes um do outro, tem o norte da sua vida em corresponder as expectativas
que seu nome traz consigo, ao mesmo tempo em que anseia criar algo seu, que
marque seu nome na história e que jamais sejam esquecidos. É um medo, uma
angústia, uma necessidade visceral que move impérios.
Esses
elementos dos personagens ganharam vida na tela graças as grandes
interpretações de Lorenzo Richelmy
e Benedict Wong. Um Marco e um Kublai cheios de
sombras, tonalidades e camadas, vivos e que causam simpatia. Marco precisa se
adaptar para sobreviver, se provar leal e útil a cada dia que passa, tendo que
muitas vezes ir contra suas convicções para não ser engolido pelo insaciável
jogo da conspiração cortesã.
E Kublai é um
personagem fantástico. Tão rico, profundo e perturbado. Ele é a representação
de dois mundos colidindo, de duas heranças que não podem conviver em paz no
mesmo espaço. Ele se espreme entre suas raízes mongóis duras e ásperas, de
sangue impiedoso e conquistador, e o império cosmopolita e tolerante que seu
avô Genghis e ele mesmo construíram, repleto de luxos e comodidades que o
mongol das estepes não vê com bons olhos. E por isso que eu considero a melhor
cena da temporada a qual Kublai, bêbado e desesperado, questiona uma antiga
armadura de Genghis sobre porque ele não conseguira derrubar os muros de
Xiangyang e conquistar toda a China, deixando para ele esse fardo.
O ótimo e
sensível roteiro concebido por John Fusco é outro dos pontos que fazem desta
série algo tão bom e relevante. Juntamente com um competente time de
escritores, a história ganhou corpo e consistência narrativa, dosando o drama e
ação de uma forma natural e intuitiva, que em momento nenhum soou forçado ou
expositivo demais. As nuances dos personagens foram trabalhadas com cuidado e
empenho, fazendo com que a trama trata-se de seus temos de forma tênue, quase
subliminar, mas estando sempre ali a mostra e fundamentalmente presente.
Direção e
fotografia também são aspectos de destaque. Os diretores souberam muito bem
usar as paisagens exuberantes das locações para criar um cenário absolutamente
convincente, que faz você realmente se sentir vendo a Mongólia e a China do
século XIII. Nisso igualmente a equipe de ambientação histórica tem um mérito
imenso, pois criaram cenários, roupas, festividades, banquetes, utensílios e
acessórios tão cuidadosamente, que conseguiram uma perfeita experiência de
imersão visual. Talvez existam discrepâncias históricas, não tenho muita
certeza, mas acho que isso se torna irrelevante comparado a todos os outros
pontos positivos da série.
As motivações,
ambições e sonhos dos demais personagens também são importantes. Cada um deles
deseja seu próprio legado, cada um quer ter o seu lugar de importância, seja
ele de fama, poder, influência ou mesmo sobrevivência. O príncipe Jingim se
parece com Kublai, tentando ao máximo honrar seu sangue mongol, apesar de sua
criação ter sido nos moldes chineses. Os filhos bastardos do Khan, guerreiros ou
conselheiro, os servidores chineses, turcos, persas, indianos e todos os cantos
do império. As prostituas e as concubinas. A imperatriz que é o porto seguro e
o norte do Grande Khan. Os “hóspedes” da corte, eunucos, guardas e soldados.
Todos eles com cor, vida e relevância.
E os inimigos
chineses, claro. O Ministro Grilo e suas artimanhas que às vezes nos levam a
arregalar os olhos como se estivéssemos vendo Game of Thrones.
Mas o meu
personagem favorito é sem sombra de dúvidas Hundred Eyes, o mestre cego de Kung
Fu que ensinou a Marco muito mais do que simplesmente sua arte marcial. O
ensinou a sobreviver naquele corte, ensinou sabedoria, e tornou-se um
improvável amigo e companheiro de importantes missões.
Enfim, essa é
uma história que vai muito além da simples aventura. Tem drama, ação e paixão
(inclusive, eu gostaria que os roteiristas de Game of Thrones vissem essa série
para aprender a retratar nudez e sexo sem ser grosseiro e juvenil), traição,
conspiração e muitas mortes e sangue. Mas o grande mérito reside mesmo nesses
pequenos detalhes das personalidades dos personagens centrais e secundários. A
sua busca por um legado, por sobrevivência e grandes realizações.
Da mesma forma
que o desejo por uma “grande aventura” é algo inerente à natureza humana, esse sentimento
de que é preciso sair da sombra dos que vieram antes de nós também é. Talvez
até maior, e com certeza mais concreta e realizável.
Definitivamente
uma das melhores produções lançadas em 2014. E eu espero que a segunda
temporada seja tão boa quanto esta primeira.
segunda-feira, 22 de dezembro de 2014
Top 30 Músicas de 2014™
Essa minha lista fica maior a
cada ano. Mas quem se importa, não é mesmo? Abaixo seguem as músicas que eu
mais gostei neste ano que passou (e como passou rápido). Como de praxe: a
maioria é heavy metal, mas não é via de regra, pois não é só de metal que vive
o homem.
quarta-feira, 2 de julho de 2014
The Leftovers - Tom Perrotta
É
difícil escrever sobre pessoas. Eu honestamente acho que é muito mais simples
você descrever uma batalha entre dois exércitos gigantescos, cheia dos mínimos
detalhes técnicos, com voltas e reviravoltas surpreendentes. Pessoas são um
assunto mais difícil de se lidar. Pessoas são profundas, imprevisíveis e com
medos e angústias difíceis de serem lidas a distância. Captar as
idiossincrasias da vida cotidiana é uma habilidade invejável, onde os pequenos
detalhes irrelevantes significam mais que grandes realizações ou feitos heróicos.
Em
The Leftovers, Tom Perrotta mostra que sabe muito bem escrever sobre pessoas. Eu
vi um trailer da série da HBO baseada nesse livro, e senti uma pontada meio
incontrolável de lê-lo. E li em inglês mesmo, num e-book catado na internet. Logo
de cara deu pra notar que as duas histórias (a do livro e a da série) são como
gêmeos bivitelinos: vem da mesma fonte, se parecem um pouco, mas
definitivamente não são a mesma coisa.
O
livro é uma meditação, ou reflexão, se preferir chamar assim, sobre perdas,
mortes, abandonos, luto e rancor. E talvez várias outras coisas, que outros
olhares com outras experiências e sensibilidades possam observar.
Um
cenário pacato. Com pessoas comuns, vivendo vidas comuns. Sem nada de realmente
extraordinário. Até que em um 14 de Outubro milhares de pessoas simplesmente
desaparecem, sem a menor pista de onde possa ter ido parar. A partir disso o
autor traça a trajetória da vários personagens, mostrando as diferentes formas
como esses personagens lidaram com esse acontecimento bizarro e sem explicação.
Por isso, é o tipo de história que eu gosto, pelo simples motivo de levantar
uma questão muito importante: se algo assim acontecesse, como você reagiria?
Os
personagens reagem com o as pessoas normais e comuns, como eu e você, regariam.
Cada uma de uma forma diferente, variando pelas experiências que cada uma delas
já teve na vida. Homens e mulheres de meia idade, adolescentes, universitários.
Todos tentando compreender, buscando um sentido, algo que faça suas vidas valer
a pena. E isso tudo por meio de situações tão banais que beiram o clichê, mas
que você compreende e sente a veracidade porque simplesmente você muito bem
poderia acabar fazendo a mesma coisa. Soa natural, orgânico.
Alguém
possa talvez argumentar que todos os personagens são brancos, de classe média e
alta, que vivem em subúrbio e não enfrentam os verdadeiros dilemas e crueldades
da vida. Bom, esse seria um argumento realmente válido se a proposta do livro
fosse falar a respeito dos verdadeiros dilemas e crueldades da vida. É algo
diferente disso, algo de certa forma etéreo, que fragilmente escapa da nossa
percepção mais imediata. Uma metáfora, talvez? Não sei se o termo seria o certo
a se aplicar, mas acho que não estaria errado por completo. Até porque não
seria um absurdo metaforizar o conceito de vida comum e pacata abruptamente
virada do avesso por um fenômeno inexplicável através da figura do Sonho
Americano: uma vida tranquila e confortável em um subúrbio, ou uma cidade
pequena, com uma casa grande, jardim, carro do ano na garagem, casamento,
filhos, cachorro, gato e reuniões de família para celebrar essa boa vida
americana. E por aí vai.
Nisso
então se agregam os dramas por trás do sonho. As mentiras, as traições, as
vaidades. Os segredos sujos. O falso moralismo e as vidas vividas em ilusão. É
um mundo novo, que tem a mesma cara de antes, mas diferente. Pode-se sentir no
ar a tensão entre as pessoas. Entre aqueles que tentam trazer a vida de volta à
normalidade e os que acreditam que o evento jamais deve ser esquecido, e que a
vida jamais será a mesma de novo. São dilemas que flutuam entre interesses de
grupos e as mortificações pessoais, por culpa, remorso e saudade.
Grupos,
seitas e cultos brotam de todos os lados. Oferecendo conforto, sentido e
redenção. Ou a constante lembrança, uma teimosa lembrança. Uns por puro
charlatanismo, outros com sinceridade. E outros que no meio do caminho acabam
fundindo uma coisa com a outra. Essa parte da historia me deixou muito
satisfeito, porque mostra de uma maneira muito convincente a forma como a
moralidade religiosa e seus princípios é algo inerente da cultura americana. A
religião é colocada completamente a frente da ciência na busca por respostas.
Se debate se foi o Arrebatamento bíblico ou não, se Jesus estaria logo
voltando, se isso seria um sinal de Deus, um castigo, uma punição. Pessoas se
desesperam tentando descobrir a razão de não terem sido “escolhidas”, por que
este ou aquele sujeito foi mesmo sendo uma pessoa ruim, cheia de segredos
sórdidos e muita sujeira por de baixo do tapete persa de sua grande e
confortável sala de estar.
Uma
boa representação do espírito americano. Ou mesmo do mundo todo. O qual sempre
se põe por cima dos outros, apontando dedos e nunca olhando os espelhos grandes
e de molduras bonitas dos seus quartos e banheiros.
Eu
realmente gostei bastante desse livro. É bem provável que muita gente se
decepcione, porque é um livro de bem pouca ação, onde a grandeza reside na
banalidade das pequenas coisas, das pequenas revelações que surgem durante
alguma obrigação tediosa. Talvez se decepcionem com o final, que parece abrupto
e meio sem sentido, mas que parando pra pensar, faz sim todo o sentido. Enfim,
uma leitura tocante em alguns momentos, divertida e engraçada em outros, que
flui muitíssimo bem (li em menos de uma semana), e que se você estando disposto
a dar uma boa olhada no cerne de famílias e pessoas da classe média americana,
seus sonhos destruídos, rancores constantemente alimentados e utopias
descabidas, The Leftovers é uma excelente pedida.
PS: Vi o primeiro episódio da
série. Gostei, mas ainda não completamente. Como eu disse no texto, é uma
história parecida, mas diferente. Enquanto que o livro leva em conta
primariamente as pessoas e suas naturezas, a série acrescenta a isso o mistério
por trás do desaparecimento repentino. Pode dar muito certo. Ou ser um tremendo
e retumbante fracasso. É esperar pra descobrir.
sábado, 25 de janeiro de 2014
Um prólogo
Seguinte: quero divulgar por aqui o prólogo de um projeto no qual eu venho trabalhando faz alguns anos. É um prólogo que "existe" a bem menos tempos que o resto da história, que nasceu de um jeito, cresceu de outro e se retorceu em alguma coisa ainda, mas de certa forma dá o tom do que vem depois.
Caso você aí tiver paciência de ir até o fim, seria legal dar um feedback. Se gostou, se achou um lixo, o que poderia ser melhorado, se pensa que eu devo plantar tomate pro resto da minha ou etc's e tais.
Obrigado :)
Caso você aí tiver paciência de ir até o fim, seria legal dar um feedback. Se gostou, se achou um lixo, o que poderia ser melhorado, se pensa que eu devo plantar tomate pro resto da minha ou etc's e tais.
Obrigado :)
terça-feira, 14 de janeiro de 2014
A Morte da Luz - George RR Martin
Mesmo
em um estilo bem distinto da obra que o consagrou definitivamente como ícone
mais tarde, este A Morte da Luz já demonstra toda a capacidade literária de
George. Ele é um escritor muito talentoso, não apenas no que diz respeito à
criatividade em desenvolver tramas envolventes, mas muito mais até em construir
personagens convincentes, reais e que mexam com os sentimentos do leitor.
Personagens humanos, com falhas e defeitos, como também virtudes, além de
dramas e desafios pessoais que poderiam acontecer com qualquer pessoa, em
qualquer tempo e em qualquer lugar. Causando assim identificação e simpatia, ou
justamente o contrário, causando repulsa e raiva. Aí que reside a qualidade de
um grande escritor: conseguir mexer com quem lê seu trabalho. E A Morte da Luz
tem tudo isso.
A
trama do livro se passa em Worlorn, um planeta moribundo, sem órbita e que
caminha lentamente para o frio e a escuridão. É uma época muito distante no
futuro, onde a humanidade se espalhou até os limites da galáxia, colonizando
novos mundos e assim surgindo novas civilizações humanas. No limite da galáxia,
Worlorn passou perto de uma super estrela vermelha, que permitiu o planeta ser
habitável por alguns anos, dessa forma os planetas daquela região se uniram e
usaram Worlorn para um grande festival. Foram anos prósperos e de alegria,
porém a marcha do planeta continuou e ele foi se afastando da grande estrela
vermelha, mergulhando em um desolador crepúsculo, com a noite eterna a caminho.
Então, não tardou em o planeta ser abandonado.
Esse
é o plano de fundo para a perigosa e mortal aventura de Dirk t’Larien, que ao
receber uma jóia sussurrante que supôs que nunca mais veria, acaba parando em
Worlorn, para atender o chamado de sua amada do passado.
Mas
o que ele encontra é um planeta agonizante e uma mulher que já não mais era a
mesma que conhecera tantos anos antes, ligada a um homem de uma cultura
estranha e que muitos chamam de bárbaro e selvagem. A partir disso se desenrola
uma trama tensa, de mentiras e traições, sentimentos e lembranças, honra e
vileza, em um mundo perdido que não conhece leis nem códigos, brutal, onde
quando você não é o caçador acaba sendo a caça, e a morte é uma sombra
constante e ameaçadora.
Nesse
livro Martin cria um universo tão rico e detalhado quanto na sua canção de gelo
e fogo, com história e forma coerentes, povos e culturas originais, e uma
concepção de tecnologia futurista totalmente lúcida e sem exageros. Ou seja, é
como de praxe em suas obras: realismo e coerência antes de tudo.
Como
eu comentei antes, Martin vai além dessa competência criativa, pois se lermos
com olhos cuidadosos conseguiremos extrair o que ele quis dizer com essa
história. O choque de culturas descrito é de certa forma uma metáfora
pertinente sobre o mundo contemporâneo, onde os povos sempre querem impor sua
cultura sobre as demais, as quais consideram erradas sem nem mesmo
compreende-las completamente. Sobre o preconceito. Sobre violência. Sobre o que
é certo e o que é errado. Sobre promessas e decepções. Sobre a forma como as
quais às vezes idealizamos as pessoas como elas não são. Enfim, eu não gosto de
usar a expressão “lição de moral”, até porque não tem nada a ver com isso. Eu
entendo que essas metáforas e paralelos são uma forma inteligente de dar corpo
e solidez a uma história. E nisso, Martin é mestre.
Entre
uma galeria não muito numerosa de personagens, o que eu gostaria mesmo de
destacar é o planeta Worlorn e suas catorze cidades do Festival. Eu achei
simplesmente fantástica a ideia desse planeta, morrendo aos poucos, onde o dia
não passa de um longo crepúsculo, repleto de ruínas de grandes cidades que
teimam em manter alguma vida moribunda. Dentre as cidades, em especial Kryne
Lamiya e sua música niilista desesperadora. Genial!
Por
fim, um livro e tanto, com o selo de qualidade George RR Martin. Muito menor
que seus primos distantes de Westeros, mas que mesmo assim consegue ser tão
profundo e tocante quanto eles. Uma história tensa, envolvente e cheia de
reviravoltas, em um cenário que permanecerá por muito tempo na lembrança dos
leitores.
Publicado originalmente em 1977
com o título “Dying of the Light”.
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
O Cemitério de Praga - Umberto Eco
O
livro conta a história do Capitão Simoni Simonini, um idoso italiano radicado
em Paris, falsário brilhante com forte veia de escritor e que envolve-se nos
mais importantes acontecimentos políticos e sociais do século XIX. A escrita
sempre pouca usual de Eco, aqui recheada de uma ironia sensacional, flui de
maneira fácil e instigante. Sob forma de um diálogo surpreendente através de um
diário, duas pessoas que nem mesmo se conhecem rememoram os fatos de uma longa
vida repleta de aventuras que se desenrolam de maneira reveladora tanto para o
leitor como para os próprios personagens da história.
Além
dos cenários históricos mostrados, talvez o grande ideal do livro seja
denunciar a completamente absurda gama de preconceitos étnicos e religiosos que
permeavam os círculos intelectuais da Europa no século XIX. Histórias populares
e outras inventadas para incitar o ódio que foram se reciclando em dezenas e
dezenas de outras obras acabaram por se tornar toda uma literatura e um negócio
rentável, seja com disparates infundados sobre judeus, maçons ou delirantes
devaneios sobre satanismo. E é aí que entra a genial ironia de Eco, mostrando
tudo isso pelos olhos de um anti-semita covicto, que não titubeia em inventar
seja o que for para justificar suas crenças que fundo talvez não compreenda.
E
uma dessas invenções é o cemitério que dá título ao livro. Entre todas as
falcatruas de espionagem e contra-espionagem, todo o pano de fundo da história
é a construção da cena no cemitério onde rabinos líderes das doze tribos de
Israel tramam um tenebroso complô para dominar o mundo. Que chega a ser hilário
para quem tem tino de compreender a ironia, porém muito realista e assustador para
mentes preconceituosas e de certa forma paranóicas.
“O
Cemitério de Praga” é um romance histórico, isto porque praticamente tudo o que
é descrito no livro de fato aconteceu, sendo o próprio protagonista o único
personagem inventado (mesmo que, segundo ele próprio, basta falar de alguma
coisa para que esta exista). Mas mesmo assim, os feitos notáveis atribuídos a
este ser ficcional também aconteceram, e mesmo que por mãos de outras pessoas,
ilustres desconhecidos que ganharam vida pela habilidade literária deste grande
mestre da literatura contemporânea.
Aliás,
também é interessante citar que o livro anda fazendo barulho entre certos
grupos religiosos. O Vaticano criticou o livro por falhar em sua missão de
denunciar o anti-semitismo, criando o efeito oposto, incitando esse sentimento
nos leitores. Um rabino romano comentou que esta não era uma obra científica
que analisa um fenômeno e por isso não teria qualquer validade. Sobre essas
falas pouco receptivas sobre sua obra, Eco respondeu o seguinte: “Quem escreve
um manual de química também pode ser acusado, se alguém o usar para envenenar a
avó”.
Eu,
pessoalmente, fico ao lado de Eco, pois acredito que um autor não pode ser
acusado se alguns de seus leitores não tiverem capacidade de discernir o que é
discurso sério e o que é apenas ironia. E não é a primeira vez que ele é
acusado pela igreja, trinta anos atrás o vaticano ficou enfurecido com o
clássico “O Nome da Rosa” (que, aliás, é um dos meus livros favoritos de todos
os tempos, recomendo também).
De
qualquer forma eu recomendo muitíssimo o livro, pois tenho convicção de que
você que está lendo este texto sabe ter discernimento e também se deliciaria com esta
história recheada de absurdos e fascinantes fatos históricos.
Assinar:
Postagens (Atom)




