segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Blind Guardian em Porto Alegre



            Eu passei por alguns momentos bastante complicados nas últimas semanas. A chuva que caiu incessante sobre o Rio Grande do Sul comprometeu quase por completo todo o meu trabalho na minha lavoura de tomate, e isso me deixou abalado demais. Quem me conhece bem sabe como isso tudo é importante para mim, o que até explica o nome desse blog, e viu no decorrer desse tempo o quanto eu fiquei perturbado.
            É uma questão de identidade. Esse trabalho me dá um sentido pra vida, me faz ter os dois pés no chão e me faz sentir que faço parte de algo, que o meu esforço tem sentido e serve para alguma coisa. O dinheiro perdido é o que menos importa. O problema, então, é agüentar a frustração e a angústia de ver todo o esforço e a dedicação indo ralo abaixo por condições das quais eu não tenho o mínimo controle. E o pior: esses sentimentos só fazem acordar os fantasmas do meu passado que voltam pra me assombrar sem um pingo de piedade.
            Mas enfim, você aí que numa dessas estiver lendo esse texto deve estar se perguntando: mas o que diabos isso tem a ver com o show do Blind Guardian?

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

A Casa de Isabel - Clara Mello

       Eu ganhei esse livro em um sorteio do twitter do Canal Futura, e isso foi o tipo de acaso que me faz descobrir algo que eu muito provavelmente ignoraria solenemente se dependesse do meu próprio interesse. Quando chegou pelo correio e eu li a sinopse na contracapa dei aquele franzir de cenho cheio de desconfiança que quer dizer algo como "ah cara, não sei não".
     Clara Mello é uma jovem escritora carioca que publicou esse livro quando tinha apenas 16 anos e chamou a atenção de muita gente por sua maturidade e sensibilidade com as quais tratou os assuntos abordados na história. Chegou a ganhar prêmios inclusive. Quem me conhece sabe que esse definitivamente não é o tipo de livro que me atrai, mas no fim das contas, acabou se tornando uma peculiar surpresa. 
       É um livro bem leve e curto, tem só 144 páginas, e a leitura flui de uma maneira muito rápida e prazerosa. Daqueles livros de serem lidos de uma vez só. A história se passa em uma casa durante um carnaval chuvoso marcado por uma tragédia que reaproxima dois amigos de infância que a vida adulta havia separado. E aborda temas profundos e relevantes como amor, solidão, morte e os rumos da vida. De fato, Clara consegue falar sobre esses temas com uma habilidade convincente.
       Pessoalmente, eu considero o estilo da narrativa como algo fluindo entre aquelas histórias de livros infantojuvenis que a gente lia direto enquanto estava na escola com algo mais adulto e maduro, que flerta com a literatura mais elevada. Me peguei pensando nisso em vários momentos, como se fosse uma história escrita por duas pessoas de duas idades bem distintas. Uma com a inocência e fervor da juventude, e outra que tem as epifanias um tanto pessimistas de alguém mais experimentado na vida. 
       No fim, acaba se tornando uma história bonita e tocante, sobre descobertas e o tempo perdido, permeada por um ar idílico surpreendente, que vai e vem entre o pesado e o leve, o delírio e a sobriedade, o vívido e o etéreo. 
        Realmente muito interessante, e pode ser bastante significativa pra pessoas de todas as idades.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Galveston, True Detective e Nic Pizzolatto



A segunda temporada de True Detective não agradou a maioria dos fãs que se apaixonaram pela série com sua primeira temporada praticamente irretocável. Eu, por outro lado, adorei esta segunda temporada, mas entendo perfeitamente quem não gostou. Foi uma história muito mais pesada e densa, mais obscura e sufocante, onde os personagens se viram arrastados a um jogo ao qual eles já haviam perdido antes mesmo de começar. Foi difícil de engolir, teve um sabor muito amargo. Muita gente não se atrai por esse tipo de história (o que não tem nada demais, diga-se de passagem, cada é livre para gostar ou não do que bem entender), mas outras pessoas, como eu, sentem certo tipo de atração por histórias quase mórbidas como essa.

terça-feira, 21 de julho de 2015

O Mundo de Gelo e Fogo (E Outros Pitacos)



            Eu fico extremamente nervoso quando leio as seguintes palavras: “George RR Martin perdeu o interesse em As Crônicas de Gelo e Fogo.”
            Mas muito nervoso mesmo. Isso só evidencia algo de que eu tenho certeza faz muito tempo, algo que denota a preguiça intelectual de muita gente. As pessoas têm visão curta. Curtíssima, parecem que não conseguem enxergar um palmo a sua frente o ou um pouco mais a fundo do que o parágrafo de um livro ou uma cena de uma série de tv. Enxergam apenas a superfície, a casca e a embalagem, mas poucas vezes reconhecem a proposta e o valor do que está realmente dentro, escondido no fundo de várias camadas.
            As Crônicas de Gelo e Fogo é uma obra que transcende a fantasia, é drama na sua forma sua mais genuína: é conflito. Conflito entre pessoas, entre interesses, sentimentos, e o mais importante de tudo, é o coração humano em conflito consigo mesmo, parafraseando William Faulkner. E não existe exemplo melhor disso o que os dois últimos livros, que muita gente considera chatos. Eu não vou me alongar nisso, afinal não é a proposta desse texto, então recomendo a leitura dos ensaios desse site https://meereeneseblot.wordpress.com/essays/ onde o autor disseca os principais arcos de Festim/Dança de forma surpreendente, fazendo com que até mesmo eu, que já tinha adorado esse estágio da saga, tenha uma visão completamente nova e revigorada da história.
            Algum tempo atrás eu escrevi um texto a respeito do conto The Princess and the Queen, e comentei que ele era prova o suficiente para mim de que o George continua sim muito interessado na sua obra. E agora, algum tempo após terminar de ler O Mundo de Gelo e Fogo e muito meditar, não me restam mais quaisquer dúvidas. George RR Martin continua se entregando de corpo e alma a essa história.
            Com a ajuda dos seus fiéis escudeiros, Linda e Elio do westeros.org (o melhor site relacionado a saga, recomendo demais), George criou uma das obras complementares mais fantásticas que eu já vi. Sinceramente. Eu corro o perigo de soar apenas como um fanboy que surta com qualquer coisa do seu universo favorito (e talvez eu seja isso mesmo), mas a questão é que esse livro não é qualquer coisa.
            Antes de continuar é preciso dizer que existem algumas falhas aqui e ali, incoerências e inconsistências, além de alguns problemas de tradução na versão brasileira, mas absolutamente nada que comprometa o valor e relevância da obra. De certa forma, poderia ser usado o argumento de que a culpa é das informações desencontradas nos registros do meistre que escreveu o livro (não é um argumento de verdade, mas fica a gracinha).
            O trabalho dos ilustradores é nada menos que sublime. Dezenas de artistas talentosos que encheram o livro com imagens maravilhosas e encantadoras, realmente de ficar de boca aberta.
            A quantidade de informação é surreal. De todos os lados e direções (inclusive com pequenos fragmentos de informações despretensiosas mas intrigantes, que alguém poderia associar com eventos do passado da história, do presente e talvez até mesmo do futuro). Em especial na história das grandes casas e dos reinos, das cidades livres e das terras ao leste e, o que pessoalmente me chamou mais a atenção e me deixou fascinado, um relato aprofundado da dinastia Targaryen, desde Aegon o Conquistador até o Rei Louco Aerys e a Rebelião de Robert. Simplesmente fantástico. Uma quantidade absurda informações que poderia ser ainda maior se não tivessem que cortar partes para evitar que o livro ficasse grande demais.
            Agora você aí que numa dessas estiver lendo isso me responda: alguém que precisa editar material que escreveu porque ficou grande demais é alguém que perdeu interesse? Alguém desmotivado e que escreve por obrigação?
            No texto que eu falei ontem sobre The Princess and the Queen, eu também tinha comentado sobre como essas outras histórias ampliam ainda mais o universo, como elas o tornam ainda mais colorido, palpável e fascinante. E agora com O Mundo de Gelo e Fogo esse universo se eleva a toda uma nova categoria de realismo que se funde com a fantasia e misticismo, cheio de vida e vigor, encantador e assustador.
            Então é o seguinte: não me venham com esse papo furado de perda de interesse. As provas de que isso é bobagem estão aí pra quem quiser apertar um tantinho os olhos e olhar além do próprio umbigo.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Paradise Lost - The Plague Witihin



            Não existe jornada que seja feita em linha reta. Você começa em algum lugar, tendo claramente em vista o seu objetivo. Durante algum tempo você segue nesse caminho, determinado a chegar ou lá. Mas não demora muito e você logo se depara com uma curva, com uma ladeira íngreme para cima ou para baixo, alguma enorme montanha onde você precisa decidir se escala ou dá a volta ao redor, um rio, um lago ou o próprio mar. São obstáculos, barreiras, impedimentos. Mas você continua. Sempre vai, afinal a vida é uma grande jornada que só termina no nosso último suspiro. 

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Obrigado Mad Men



       
           Não foi muito longo o tempo que Mad Men fez parte da minha vida. Pra ser exato, menos de um ano. Revirando minha timeline do facebook lembro que vi o piloto da série em 22 de junho de 2014, uma entediante e chuvosa noite de sexta feira. Não me recordo muito bem qual foi o motivo que me fez começar a serie naquele momento, talvez mais um dos incontáveis elogios que já havia lido no twitter ou em site de séries. Mas isso não importa, o que realmente importa é a poderosa experiência que as sete temporadas dessa série me proporcionou. 


terça-feira, 5 de maio de 2015

Eu não existo

Eu honestamente tinha pensado que os dias de blábláblá depressivo desse blog fossem coisa do passado (dia desses dei uma olhada nos posts mais antigos e me bate uma vergonha do caralho). Ora, doce ilusão.

Não adianta, cara, quando você carrega consigo todas as suas amarguras e remorsos o tempo todo, quando eles estão sempre ali na espreita prontos para dar o bote, por mais que você tente se esquivar eles sempre vão voltar. É cíclico. Eu tento mudar um pouco minhas atitudes, ser menos exagerado, falar menos bobagem e ser alguém minimamente tolerável, Mas de novo: não adiante. A angústia sempre volta, e demanda ser expurgada por autodepreciação, piadas retardadas e muito, muito amargor nas famigeradíssimas """"redes sociais"""". E eventualmente alguns rabiscos em um blog que ninguém lê.

E aí que reside o maior problemas de todos. Internet.
Eu só existo aqui, em arroubos de estupidez, torrentes de comentários vazios sobre heavy metal e seriados, alguns esportes que ninguém mais gosta. Fora disso? A rotina de acordar-trabalhar-almoçar-trabalhar-jantar-dormir, costurada com as coisas que falo e faço na internet. Vai dizer que não é deprimente? Eu realmente não existo. Eu não saio de casa em um fim de semana, ou pra fazer alguma coisa que eu realmente queira, tem praticamente quatro anos.

Eu posso dizer que já tive amigos de cotidiano, de vida real, ótimos amigos, que se importavam e até certo ponto gostavam de mim. Depois de terminar o ensino médio e fracassar amargamente em tudo o que tentei fazer depois disso, comecei essa clausura e praticamente afastei todas essas pessoas. Acho que na maior parte inconscientemente, e outros poucos talvez com uma dolorosa consciência, em impulsos e palavras ditas sem terem sido medidas antes. Me ligavam convidado pra fazer coisas, mas eu sempre recusava da maneira mais gentil, em um misto de preguiça e falta de vontade (e às vezes também simplesmente não dava, sejamos justos), até o dia em que essas ligações pararam. Eu não recebo uma ligação de um amigo tem uns três anos. Eles se cansaram, como todas as pessoas  com as quais eu me relaciono, nos mais diversos níveis, eventualmente acabam se cansando.  No fim das contas eu sou uma pessoa tóxica, eu irradio o meu mau humor e ressentimentos de uma forma muito mais forte do que as (muito poucas) coisas boas sobre mim. Cedo ou tarde as pessoas se dão conta da casca vazia que eu sou e se afastam.

Mas apesar disso tudo, essas coisas me perturbam bem menos hoje do que em outros momentos da minha vida. É uma questão de aceitação. Eu me aceitem como um saco de lixo humano que vai passar cada dia da sua existência sozinho. Não me entendam mal, eu não tenho depressão nem nada, dizer isso seria uma tremenda bobagem e um desrespeito com quem realmente sofre com essa doença. É apenas a frieza da lucidez falando, apontando com rijos dedos os erros que eu cometi e que me levaram a este bueiro existencial. Também não vou dizer que sou vítima disso ou daquilo, de daddy issues ou de ter sido incompreendido. Não, eu simplesmente sou um fracassado por natureza.

O lance de viver sozinho é a certeza mais forte. Eu não tenho nada pra oferecer. E não digo que eu ache que deveria sustentar minha esposa e toda essa ladainha anos 30. Eu vou viver nesse buraco chamado Roncador pra sempre, me fodendo todo santo dia na roça, porque eu não tenho o menor jeito de fazer qualquer outra da vida. O que isso agregaria na vida de alguma mulher que vai ter a sua carreira, os seus sonhos e objetivos? Nada, nadinha. Eu nunca prenderia alguém a uma vida insossa no meio do nada. Muito menos casaria e formaria uma família pura e simplesmente por conveniência social. 

E vai muito além disso. Quem iria querer manter um relacionamento com uma pessoa com crises de ansiedade que a fazem jogar tudo para o alto de repente? Que tem o toque de Midas reverso e destrói tudo o que de bom poderia ter? Alguém sem perspectiva NENHUMA de futuro? Alguém que mal sabe falar direito porque perdeu a prática? Alguém que a única coisa que causa excitação é um show de heavy metal quase um ano no futuro? Enfim, acho que deu pra entender.

Sabem, isso aqui não é bem um chororô ou uma poça suja de autopiedade. Nem justificativa de nada. Eu não vou tentar me eximir da minha condição de fracassado e inútil. É uma constatação.  Eu meio que senti a necessidade de falar essas coisas. Só falar, botar pra fora, tirar um pouco o peso da angústia na consciência. São pensamentos recorrentes na minha cabeça. Talvez isso me ajude a deixar eles um pouco de lado.

Possivelmente não vai, mas o que vale é a tentativa né?